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QUANDO FUI A FÁTIMA A PÉ



Foi em 2004, se não estou em erro, que decidi, juntamente com uma colega do trabalho, fazermos o percurso a pé até Fátima.

Sempre gostei de caminhar e pensei que poderia ser um desafio. Não fui por questões religiosas, fui para sentir o que é ir a Fátima a pé, fisicamente e emocionalmente.

Ela teve conhecimento de uma paróquia do concelho de Cascais que organizava toda a logística e que nos inseria no grupo, limitado, mediante um pagamento cujo valor não me recordo agora, mas nada de extraordinário para toda a logística envolvida.

Decidimos aceitar o desafio. Começámos por ir a uma ou duas reuniões do grupo onde nos foi explicado como tudo funcionaria, em termos de alojamento, percursos, horas de caminhada e de descanso, o que levar e o apoio que teríamos.

Tratámos da nossa própria logística e no domingo anterior ao 13 de maio, apresentámo-nos no local da partida, no Parque das Nações, por volta das 08:00 da manhã, onde se reuniria o grupo para começar a jornada. Eu levava uma mochila com água e alguma comida. Levei apenas uma mala com roupa e os produtos de higiene que a carrinha de apoio transportava durante todo o caminho.

Caminhámos por 5 dias, 30 kms por dia. Levantávamo-nos às 6 da manhã, tomávamos o pequeno-almoço que disponibilizavam, parávamos pelas 13h para almoçar nos mais variados sítios, como ginásios, bombeiros e a quem nos dava guarida. Da parte da tarde descansávamos para no outro dia repetir este ritmo.

Durante o percurso éramos sempre acompanhados pela carrinha de apoio que seguia ao mesmo passo que nós. Os membros do grupo eram todos mais velhos que nós, que na altura, teríamos 25 anos. Havia de todas as idades, até aos 70, pelo menos. E o mais peculiar e o que me marcou até hoje foi a capacidade de resiliência daquelas pessoas. Pessoas com alguma idade, alguns a caminhar de chinelos, a cantar, seguindo determinados pelo que se propuseram.

A fé realmente move montanhas e ali estava a prova.

Nunca se queixavam e caminhavam sempre à frente do grupo, enquanto eu e a minha colega iámos mais atrás. Acabámos por fazer amizade com 2 raparigas e um senhor mais velho a quem nos juntávamos para caminhar de vez em quando.

Dormimos em vários quarteis de bombeiros, em espaços abertos, onde eu confesso, era impossivel dormir, pelo menos para mim. Havia sempre alguém a fazer alguma coisa, pois não era só o nosso grupo que lá ficava, mas sim mais 3 ou 4 grupos talvez, tudo a dormir no chão, ao lado uns dos outros.

Um dia, uma das senhoras mais idosas que ia no percurso, já não aguentava mais. Era uma senhora tão bonita, uma daquelas avós amorosas que todos gostaríamos de ter, que acabou por fazer o resto do percurso na carrinha. Mas sempre que parávamos para descansar, ela abria a porta da carrinha, com aquele ar amoroso de quem só apetecia abraçar, e falava com o grupo. Até hoje me lembro dela, pois apelidámo-la de "vóvó", pelo amor que trazia dentro dela.

Uma outra vez, quando chegámos a um ginásio para almoçar, um senhor caiu desmaiado. Ficámos todos preocupados. Talvez fosse fome, talvez emoção, mas acabou por recuperar e continuar a caminhar até ao fim. Sentia frequentemente que as pessoas estavam muito emocionadas, decididas a agradecer ou a pedir alguma coisa a uma entidade maior. Muito facilmente as pessoas choravam emocionadas quando falávamos sobre a razão de estarem a caminhar até Fátima.

Todos os dias e sempre que acabávamos o percurso diário, lá estavam os voluntários a dar massagens, fazer pensos a quem tinha bolhas, sempre numa dedicação extrema. Mesmo o apoio de quem nos acompanhava sempre foi muito cuidadoso, sempre atento.

Confesso que ao quarto dia e na reta final antes de chegar a Fátima estive para desistir. Sentia-me extremamente cansada, desmotivada, a pensar que só queria ir para casa. Nunca tive bolhas, mas as pernas já estavam para lá de extenuadas. Pensei em apanhar um autocarro e voltar para casa. Foi por pouco que não o fiz. A minha paciência era nula e já não conseguia pensar em nada.

Enchi-me de coragem e pensei em fazer mais 40 kms no dia a seguir e depois voltaria..... E assim fiz. Quando chegámos a Fátima eu já nem conseguia dizer nada, mas o sentimento que se sentia naquele local era um misto de conquista, vitória, amor, entrega e crença inabalável de se ser atendido.

Guardo esta experiência até hoje como símbolo de força e determinação de todos aqueles que ali fizeram o percurso e sem relutância lá chegaram.

A todos os que lá estiveram comigo, um bem-haja!






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